23 de abril de 2005

Maria Filomena Mónica

é uma pensadora que aprecio. Admiro a clareza com que expõe, a argúcia que utiliza e a coragem de, quando entende, ir contra o "politicamente correcto".
No Público de ontem, 22, Maria Filomena Mónica, acerca do aborto, escreveu:
"Um feto é vida, apenas no mesmo sentido em que um animal ou um vegetal é vida; não é um ser humano.". E mais à frente, "A Igreja Católica pode dizer o que quiser, mas não pode impor a sua doutrina a uma sociedade laica.".
Não concordo que se discuta este assunto à luz dos princípios da Igreja Católica. Não se discute a origem das espécies ou a evolução do homem e do universo à luz de dogmas. São assuntos de ciência, embora esta, quando, investigando, percorre o caminho contrário ao da evolução, chegue a um ponto para o qual não consegue avançar com explicações científicas (!).
Nesta lógica, penso que a problemática da vida humana, da vida intra-uterina, do feto e do aborto, deve ser discutida à luz da ciência. Deve ser a ciência a dar resposta a esta questão crucial: a partir de que momento é que a ciência considera que aquele "animal" ou "vegetal" vivo, a que chamamos feto, passa à condição de ser humano?
No instante da concepção?
Às 10 semanas? 12? 16?
Quando passa a ser "viável"?
Quando possa sobreviver fora do útero da progenitora?
Quando nasce?
...
Já agora, também se impõe que a ciência defina em que condições é que, no fim da vida, ou em consequência de doença ou acidente, um ser humano possa ser "desclassificado", passando à categoria de "animal" ou "vegetal" vivo, logo descartável.